A Maluquinha de Arroios
de André Brun

Temporada artística

1993

Em exibição

maio 1993
Teatro Municipal Baltazar Dias

classificação etária

Maiores de 12 anos

duração

2H30m
(com intervalo)

Encenação
Eduardo Luíz

INTÉRPRETES E PERSONAGENS

(por ordem de entrada em cena):
Margarida Gonçalves | Conceição
Fátima Rocha | Perpétua Rodrigues
Mavélia da Guia | Capitolina Esteves
Miguel Vieira | Baltazar Esteves
Emanuel Abreu | Abranches
Élvio Camacho | Xico
Ana de França | Luísa
Paulo Sérgio | Artur
Duarte Rodrigues | Jerónimo Martins
Ester Vieira | Alzira de Menezes
Bernardete Andrade | Eulália Martins
Paula Erra | Natividade
Sérgio Perneta | Joaquim
Norberto Ferreira | Borboleta

Ficha Artística e Técnica

Encenação e Direcção artística | Eduardo Luíz
Assistente | Duarte Rodrigues
Direcção de Cena | Márcia das Dores
Encarregues de Contra-regra | Cristina Loja, Natércia Filipa e Patrícia Perneta
Cenografia | Raúl Pestana e Margarida Lemos Gomes
Carpintaria | Mestre José Lino e Paulo Mendes; Ajudantes de carpintaria – João Figueira
Montagem do Dispositivo Cénico | Jorge Sousa Humberto Andrade, Júlio Freitas e José Perestrelo
Pintura | Mestre José da Côrte
Figurinos | Raúl Pestana e Margarida Lemos Gomes
Execução de Guarda-roupa | Julieta Rodrigues e Albertina Silva
Ajudantes de Costura | Amélia Lourenço, Ilda Vieira e Mavélia da Guia
Cartaz, Capa de Programa e Diagramação | Raúl Pestana
Execução de Adereços | Cristina Loja e Raúl Pestana
Luminotecnia | Hélder Martins
Ajudantes de Electricista | António José e David Ferreira
Sonoplastia | Henrique Vieira
Coordenador de Produção | Pedro Cabrita

Sobre o Espetáculo

ACERCA DE TEATRO, EM PORTUGAL

Passou, felizmente, a época, em que era fino, inteligente, progressivo mesmo, não fazer teatro que o público entendesse, a que o público aderisse pela via mais espantosa que, desde sempre, possibilitou um dos mistérios maiores da liturgia teatral: a troca de emoções. Vá-se lá saber ao certo porquê, andaram uns padres de uma nova religião teatral a procurar impedir que, a todo o custo, se fizesse a reunião fundamental, condição “sine qua non” para que o teatro aconteça. Desde o uso e abuso do teatro das correntes do absurdo, passando pelo lamentável comício, gastando as espantosas lições de Brecht e do seu distanciamento, tudo fizeram esses inteligentes para que as plateias ficassem vazias, ou quando muito, salpicadas por um punhado de amigos, conhecidos e capangas.
Até os nossos Maiores, aqueles que ganharam, pela genialidade da sua obra, direito a ficarem entre nós para sempre, até esses foram desviados do lugar sagrado do palco, arrumados em poeirentas e estúpidas gavetas, aguardando que a onda morresse, naturalmente, na areia poluída da cabecinha dos nossos senhores das Artes Teatrais. Assim, dormiram anos Sófocles, Aristófanes, Gil Vicente, Calderón, Lope de Veja, Shakespeare, Goldoni, Molière, Racine, Schiller, Labiche, Ibsen, Bernard Shaw, Claudel, Tchekhov, Jarry e tantos outros, subtraídos à luz vivificadora da ribalta, trocados por coisinhas sem nexo, textos que a História do Teatro jamais arrolará nas suas páginas.
Foi um período longo, penoso, angustiante, em que o Teatro, em vez de aliciar, de seduzir o público, com a arma natural que, intrinsecamente contém – o conflito, a palavra, a grande representação dos temas maiores da atribulada vida do HOMEM, na sua passagem por aqui, rindo ou chorando, – ao contrário, se deixou enredar em experimentalismos da treta, em pobrezas franciscanas, pindéricas e contrárias ao “rigor, precisão e acabamentos”, de que falava Stanislavsky, em longos monólogos anti-teatrais, apenas destinados a expor o narcisismo delirante de alguns actores que o debitaram e a cansar o pobre do espectador, se deixou, em suma, isolar, afastar daquilo que o faz existir deveras: o público!
Não era fácil lutar contra o consumismo desenfreado, a ausência de vontade Oficial, o avanço tecnológico vertiginoso que nos entope a casa e o cérebro com televisão locais e satélite, cassetes, vídeos, discos compactos e outras traquitanas, com um teatro feito para amigos, correligionários e novos ricos da cultura, chato, hermético, insuportável.
Foi preciso que uns tantos, cansados, desesperados, contra vento e marés, ventos e marés tão bravos e alterosos que fazem com que, da sua reabertura até hoje, o triste Teatro Nacional de D. Maria, Casa de Garrett, não tenha, até ao presente, levado à cena a obra maior do escritor, que é a obra-prima Frei Luís de Sousa, foi preciso, dizia, que esses tantos, voltassem a fazer um teatro para toda a gente.
Nesse número me incluo ao fazer, a certa altura, dois autores diferentes, se quisessem um maior e outro menor, mas ambos indiscutíveis Autores de Teatro. O enorme Frederico Garcia Lorca e André Brun, o nosso doméstico e divertidíssimo humorista.
Convivi com Brun durante dois anos, o tempo de ensaiar e levar à cena, durante um ano e meio: A Vizinha do Lado.
Hoje, que no Baltazar Dias se representa a sua outra peça longa (infelizmente ele só escreveu duas peças longas!) quero recordar o grande prazer que me deu envolver-me com a primorosa carpintaria de cena, o recorte e profundidade de quase todas as personagens, o humor simples, certeiro que, passado quase um século, faz rir o espectador sem ser preciso recorrer ao traço grosso, agora tão em voga. Sobretudo, quero recordar o enorme prazer que foi para todos nós, encenador e actores, ver salas cheias, divertidas, atentas, comungando sem rebuço, sem medo de parecer estúpidos, no grande banquete, na grande Festa do Teatro.
Oxalá A Maluquinha de Arroios do TEF, vos proporcione sonoras e gostosas gargalhadas com a tresloucada Alzira Menezes, deleitados sorrisos com os amores do Chiquinho Poeta.
E atentem na actualidade da peça. Atentem na crueldade que André Brun não dispensou para tratar os “novos-ricos”. Os da peça, engordados pela Guerra, só não tinham o “Ola” e a “Nova Gente” para se espanejarem. Mas muito parecidos com os de hoje, bem nutridos por outras coisas.
Então, que suba o pano. Lá de cima, da teia, estará com certeza velando para que tudo seja belo e terrivelmente divertido, a senhora D. Mirita Casimiro que, não há muitos anos, nos serviu, com o seu admirável talento, tantas vezes desbaratado, uma maravilhosa D. Perpétua, dirigida pela mão mágica de Carlos Avilez.

Fernando Augusto, 1993

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