Doce Pássaro da Juventude
de Tennessee Williams

Temporada artística

1983

Em exibição

dezembro 1983
Teatro Municipal Baltazar Dias

classificação etária

Maiores de 12 anos

classificação etária

2 Horas
(aproximadamente)

Encenação
Fernando Heitor

INTÉRPRETES E PERSONAGENS

Carlos Franquinho | Chance Wayne
Bernardette Andrade | Princesa Kosmonopolis
Paulo Brazão | Mosca
Fernando Matta | George Scudder
Eduardo Luíz | Boss Finley
António Plácido | Tom Junior
Anita Abreu | Tia Nonnie
Paulo Brazão | Charles e Stuff
Fátima Pereira | Miss Lucy
Ricardo Gonçalves | Pianista

Ficha Artística e Técnica

Doce Pássaro da Juventude | de Tennessee Williams
Tradução | Nuno Morna e Álvaro Cravo
Adaptação | Fernando Heitor
Arranjos Musicais | Ricardo Gonçalves
Cenografia e Guarda-roupa | Eduardo Luíz
Montagem | João Nóbrega, Arnaldo Figueira e José Côrte
Assistentes de Montagem | Anacleto Capelo, Carlos Viveiros, Ferdinando Jardim, Jaime Fernandes e António Teixeira
Execução de Guarda-roupa | Cidália Vieira
Sonoplastia | Henrique Vieira
Contra-regra | Fernando Matta
Assistente de Encenação | Eduardo Luíz
Encenação | Fernando Heitor

Texto do Encenador

DOCE PÁSSARO DA JUVENTUDE a

Isabel Perestrello, Nuno Gonçako, Ângela Maria, Luísa Perestrello, Nuno Morna, Mª Manuel Homem, Mavélia da Guia, António Ascensão e Rosa Maria.

A minha paixão por Tennessee Williams começou pelo cinema: Gata em Telhado de Zinco Quente, a maravilhosa e soberba Liz Taylor, idem o Paul Newman, depois Bruscamente no Verão Passado com o melhor actor de sempre que Holliwood conseguiu, Montgomey Clift, a Katherine Hepburn, de novo a Liz e Mankiewicz, Um Eléctrico Chamado Desejo, dos melhores e mais belos Kazins de sempre, um Marlon Brando e uma Vivien Leigh inultrapassáveis, a Ava Gardner mais espampanante e mais fêmea que nunca em A Noite da Iguana, e de novo o Paul Newman e Geraldine Page, cheios de força e de capacidade de transporte em Doce Pássaro da Juventude. Os Tennessee Williams passados ao cinema reforçaram o meu interesse e amor pelo “Método”, amor esse que vem dos tempos em que estudei e me rendi a Stanislawsky, o trabalho do actor começa aí, o resto são derivações (isto no que diz respeito ao teatro ocidental, que é o único de que ouso falar). Brecht, tinha a mesma opinião, foi daí que ele partiu, embora muitos dos seus estudiosos não o refiram claramente.
Só o verão passado li Tennessee Williams, 15 dias no Algarve, debaixo de um sol abrasador, devorei gulosamente páginas e páginas, peças e peças. Ficou-me uma ideia insistente, encenar Tennessee Williams, representar Tennessee Williams. Desde essa altura as suas peças passaram a fazer-me companhia por todo o lado.
Tennessee Williams, em todas as suas peças, mais do que retratar épocas, ambientes ou sociedades, fala-nos do homem como indivíduo, o homem contemporâneo, só, perdido, os personagens de Tennessee Williams são sempre personagens urbanos, muitas vezes emigradas de pequenos meios, factor que vem acentuar o seu sentimento de deslocação e mal-estar. São personagens com corpos quentes e ansiosos, de vida interior intensa e fantasiosa, insaciáveis, exigentes, incapazes de chegarem ao corpo que procuram como quem procura a PAZ. Procuram na evasão o conforto, fogem, bebem, fumam, voltam ao ponto de partida, cada vez mais perdidos, desesperados, cansados. Em Doce Pássaro da Juventude há ainda o problema da velhice, melhor, da chegada à idade adulta, do fim da juventude, dos verdes anos, das ilusões, quando o corpo é rijo e saudável e tudo é mais fácil. É a recusa à aceitação de que já não somos nenhuns “meninos”, deixaram de nos achar graça, já não aceitam a nossa irresponsabilidade. Somos adultos, já não temos a cara que Deus nos deu, mas sim aquela que merecemos, exigem que tomemos posições, temos de tomar conta de nós, não nos dão tempo para o sonho, a realidade é dura, é a batalha do pão-nosso-de-cada-dia, a concorrência, a competência, é a grande solidão dos centros urbanos e os primeiros cabelos brancos que tornam a luta mais amarga quando se constata que já temos pouco tempo, ainda não fizemos nada e ninguém nos acompanha.
A primeira coisa que Stanislawsky pede ao actor é que não “represente”, que sinta, que procure na sua memória vivências que o ajudem a exteriorizar os seus sentimentos mais subtis. É a recusa do cliché, aqui o actor está mais exposto e o espectáculo só funcionará se ele for autêntico. Tem sido este esmerado trabalho que tem atrasado a estreia de Doce Pássaro da Juventude, esperamos, eu e os actores do TEF, que ele tenha sido profícuo e que o público se regozije connosco.
Quero ainda assinalar toda a assistência que me foi prestada pelo Eduardo Luíz, assim como o seu trabalho de estreante como cenógrafo, fruto de grandes discussões, muitas tentativas e algumas cervejas.
A iluminação, de Elmano Vieira, não se pretende realista, mas sim um complemento psicológico a cada uma das cenas e mesmo a cada um dos personagens, quase como se se tratasse de um personagem extra, uma espécie de comentador da acção.
A música, quer ao vivo, quer gravada, é, quase sempre, apenas um elemento cenográfico sonoro, como os automóveis na rua duma cidade.
Os actores, são os melhores, são os nossos e, aqui ou em qualquer parte do mundo, são eles que dão a cara, o mérito do espectáculo é deles.

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Produção 39 do Teatro Experimental do FunchalProdução 7 do Grupo Experimental de Teatro do Funchal