“De um artista, hoje, o que é legítimo esperar?”

1 RIBEIRO, António Pinto, “De um artista, hoje, o que é legítimo esperar?”, Lisboa, Público, 02fev1999, p. 11

Um EU (ARTISTA)… a particular «respiração», diferenciada; uma manifesta expressão individual; os gestos de comunicabilidade vertida por Objetos ou Ideias; um Tempo; uma Voz; a formalização dum Corpo/ALMA. António Pinto Ribeiro, investigador e programador no domínio cultural e artístico, assinou o título: “De um artista, hoje, o que é legítimo esperar?”1 (Público, 02fev1999). Lê-se: A obra do artista pode e deve conter o sintoma (da época, do tempo, do lugar, do autor) mas deve ultrapassá-lo para poder ser obra. “O Jardim das Delícias” de Bosch ou “1980, uma obra de Pina Bausch” dizem-nos sobre os sintomas de mal estar na visão dos seus criadores, mas não são apenas relatos de sintomatologia./Dito de outro modo: ao criador não lhe basta informar, exige- se-lhe que nos transcenda. Acrescente-se: Esta é a primeira expectativa que pedimosao artista: a da possibilidade de transcendência. Do ponto de vista de António Pinto Ribeiro, Ser artista não decorre de uma habitação e é mais do que a prova de uma assinatura. Complemente-se estas ideias com as palavras de Luc Ferry, no seu livro, Homo Aestheticus – A Invenção do Gosto na Era da Democracia2: a obra é definida pelo próprio artista como uma extensão de si próprio, uma espécie de cartão de visita particularmente elaborado. No livro: A Arte da Vida de Zygmunt Bauman, lê-se: As nossas vidas, quer o saibamos ou não e quer o saudemos ou lamentemos, são obras de arte.3 Simetria, beleza, forma, medidas certas, harmonia e etc. Eis por vezes o que é estar vivo quando a terra nos suporta e protege./ Mas viver nunca tem os lados iguais entre si como um quadrado. O início e o final são assombrosamente distintos. Início e final tornam-se até, por vezes, inimigos (de tão diferentes)./ A existência, tendo forma, é assimétrica.4 E nessa assimetria do Todo que somos, surge o projeto de maniFESTAção, feito do INDIVIDUAL, da IDENTIDADE reunida num coletivo expositivo – CRIAÇÃO e partILHA – CORPO instalação: “o vENTRE dOS SONHOS”. José Tolentino Mendonça, numa das suas crónicas intitulada “ARTE INVOLUNTÁRIA”, afirma: A arte supõe o gesto deliberado, o processo, a reflexibilidade, a dimensão laboratorial, a instigante e consciente procura, a experimentação. Mas o olhar e o coração de cada um de nós sabem, no entanto, que existe também uma arte involuntária.5 Sobre o ensaio, O Nascimento da Arte de Georges Bataille, o crítico Nuno Crespo, refere que, o fazer artístico nunca se tratou de um gesto utilitário, porque para o homem de Lascauxpintar foi um gesto que transbordou o mundo do trabalho e da necessidade. Há uma descoincidência entre a invenção/utilização dos utensílios de trabalho e a invenção da arte, o que mostra que a arte radica, acima de tudo, na festa e no recreio.6 Assim, podemos falar do projeto de maniFESTAção como um momento de festividade, atendendo a que a Companhia ATEF comemora 45 anos, e este projeto insere-se nessas comemorações. Aos artistas, solicitou-se um modo de “REPRESENTAÇÃO”, formato pequeno (máximo A4), um TESTEMUNHO singular. O mote dado, foi: ISTO (a obra), sou EU… esta é a minha Arte. Assintamos, em tom de conclusão, nos versos de Luís Quintais: Nenhuma prática, oficina ou mapa te afastará do erro. Tudo é/ acidente. (…)/Reescreves a dispersa luz.7 Acerquemo-nos das palavras de Paul Auster, que face a um bloqueio criativo, escreveu – Espaços em Branco, onde se lê: Agora só me resta este vazio: um espaço, ainda que pequeno, onde tudo o que pode acontecer se põe a acontecer.8

Paulo Sérgio BEJu

1 RIBEIRO, António Pinto, “De um artista, hoje, o que é legítimo esperar?”, Lisboa, Público, 02fev1999, p. 11 2 FERRY, Luc (1990), Homo Aestheticus – A Invenção do Gosto na Era da Democracia, Lisboa, Livraria Almedina, jun2003, p. 31, (Capítulo I, “A REVOLUÇÃO DO GOSTO”, pp. 27-52 3 BAUMAN, Zygmunt (2008), A Arte da Vida, Lisboa, Relógio D`Água Editores, jan2017, p. 34 4 TAVARES, Gonçalo M., “As cabeças“, crónica dicionário ilustrado. Lisboa, revista Notícias Magazine n.1178, 21dez2014, p. 74 5 MENDONÇA, José Tolentino, “ARTE INVOLUNTÁRIA”, crónica QUE COISA SÃO AS COISAS, Expresso/Revista E, Ed. 2448, 28set2019, p. 92 6 CRESPO, Nuno, “Dissipar a noite originária”, Lisboa, Público/ Supl. ípsilon, 08jan2016, pp.24-5, sobre o Ensaio de Georges Bataille – O Nascimento da Arte 7 QUINTAIS, Luís, AGON, Porto, Assírio&Alvim, out2018, p. 10 8 AUSTER, Paul (1980), Espaços em Branco, Lisboa, não (edições), mai2018, 2.a ed., p. 20 9 COELHO, Eduardo Prado, O CÁLCULO DAS SOMBRAS, Porto, Edições ASA, mar1997, pp. 93-4

a) a arte coloca permanentemente «a questão do sentido» (que sentido tem o que se faz?) e a questão do sentido é aquela que permanentemente reproblematiza todas as questões; b) a arte dá uma particular sensibilidade ao valor do supérfluo, e a ideia fundamental de uma «quantidade de vida» emerge quando compreendemos como o «supérfluo ganha sentido»; c) a arte é uma experiência constante de abertura para o desconhecido e de apelo à imaginação de mundos possíveis.9

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