844_folha_sala

Fig.1 – NATUREZA MORTA – floração de palmeira caída nas imediações da galeria.a aquando da montagem do primeiro projeto de exposição “HUMANO RETORNO”, 28nov2017

MANTER BOLHAS DE LUZ NA NOSSA CABEÇA*

Um Artista// Adoro a ideia da sua ira. / A sua obstinação contra a rocha, / o modo como extraía / a substância de verdes maçãs. HEANEY, Seamus, , Da Terra à Luz – Poemas 1966-1987, p.335

O projeto expositivo “DAgeografiaDOSolhos”, toma forma no momento da estreia da 142ª produção da Associação Teatro Experimental do Funchal – “Os Gladiadores”, decorrida  a 07 de março de 2018. Num tempo veloz, propusemos às artistas a  observação do espetáculo, tornando-se este o mote de criação. Socorremo-nos da sugestão do escritor Gonçalo M. Tavares, na sua crónica “Diário” (JL, 31jan2018), se toda a intensidade está no ator, o que sobra para quem vê?  Como medir a intensidade de um ator? Não há fita métrica nem balança, isso é evidente, um intensitómetro (medidor de intensidade estética) seria excelente mas não existe, já o sabemos – nem sempre os instrumentos científicos acompanham o delírio estético. Intensidade de interpretação do ator: ainda nenhum aparelhómetro, no século XXI, foi capaz de nos esclarecer. Desta feita, nasce uma exposição coletiva, com abertura ao público no dia 27 de março | Dia Mundial do Teatro | cujo contexto pode ser entendido como continuidade,  prolongamento ou reverso de uma provocação recolhida das cenas, no ato efémero que é o TEATRO vivo. Pelos OLHOS das artistas, pelo seu SENTIR, germina um novo olhar – o do FRUIDOR.  Ficamos deslocados, no domínio cristalizador das imagens – a arte é esse intensificador das coisas – e das bocas do TEATRO surgem poemas ilustrados.

Quando preparávamos o primeiro projeto da galeria.a – HUMANO RETORNO, deparámo-nos com a imagem que ilustra o atual projeto – a ramificação floral de uma palmeira em queda, fruto do vento intenso e da chuva abundante. Escolhi ser esta, a imagem ideal para um projeto sobre Natureza Morta. É sempre um tema estranho… a natureza morta. Porém, ao contrário, o teatro faz-se de vida. Respira-se. Esta é uma imagem  dramática, inevitavelmente colada à pele e, ao mesmo tempo, intensa de luz a brotar das cores, tão espiritual, tão bruta e tão acesa como um palco, fazendo da natureza simples, uma atriz maior. Faz sentido que esta exposição – “DAgeografiaDOSolhos” – seja gerada por mãos de mulheres, com ARTE. Citando Rosa Montero, no seu livro: A RIDÍCULA IDEIA DE NÃO VOLTAR A VER-TE (2013:26), escreve: «A arte é uma ferida feita de luz», dizia Georges Braque. Precisamos dessa luz: não só quem escreve, quem pinta ou quem compõe música, mas também os que leem livros, veem quadros e ouvem concertos. Precisamos todos dessa beleza, para que a vida nos seja suportável. Não sei o que dizem os teus olhos, na observação destas paredes animadas, onde se fala de arte  e se desdobram poemas, como no poema breve de Ana Hatherly  – “Olhando o escuro” – no livro “Itinerários” (2003:36)**, é preciso lutar.              

Paulo Sérgio BEJu, mar2018

*Frase extraída do livro: “A RIDÍCULA IDEIA DE NÃO VOLTAR A VER-TEde Rosa Montero (2013:14)

** No livro “ITINERÁRIOS”, há um pequeno conjunto de poemas dedicados ao arquipélago da Madeira, aquando da passagem da escritora pela ilha, e nos quais se inclui o poema referenciado.  O poema “Olhando o escuro” foi apresentado integralmente numa das paredes da exposição.

  • 15 Artistas:

    Alice Sousa, Andorinha, Cristina Perneta, Dina Pimenta, Evangelina Sousa, Graça Berimbau, Isabel Natal, Luísa Spínola, Patrícia Pinto, Rita Lucília, Rita Rodrigues, Silvia Marta, Sónia Andrade, Teresa Jardim e Vanda Natal.

  • Curadoria – Paulo Sérgio BEJu

Contact Us

We're not around right now. But you can send us an email and we'll get back to you, asap.

Start typing and press Enter to search