Schweyk na Segunda Guerra Mundial
de Bertold Brecht

Temporada artística

2011/2012

Em exibição

30 março a 15 abril 2011
Cine Teatro de Santo António

Classificação etária

Maiores de 12 anos

Duração

1H40m
(aproximadamente)

Encenação
Élvio Camacho

INTÉRPRETES E PERSONAGENS

António Ferreira | Baloun
António Plácido | Brettschneider
Duarte Nunez | Capelão
Duarte Rodrigues* | Schweyk
Eduardo Luíz | Hitler
Eduardo Molina | Prochazka e Cão
Ester Vieira | Capitã Bullinger
Fabião Santos | SS
Isabel Rodrigues | Kati
Joana Ponte | Anna e Tenente
Margarida Gonçalves | Velha Camponesa e Ponto de Schweyk
Miguel Ângelo | Goering, Goebbels, Himmler, Homem e Von Bock
Paula Erra | Kopecka
Tiago Mendonça | Sentinela
Xavier Miguel | SS Cossaco

*Gentilmente cedido pela Secretaria Regional da Educação e Recursos Humanos|Direção Regional de Educação|Núcleo de Inclusão pela Arte

Ficha Artística e Técnica

Dramaturgo | Bertold Brecht
Música | Hanns Eisler
Encenação e Dramaturgia | Élvio Camacho
Desenho de Luz | Hélder Martins e Eduardo Luíz
Coordenação de Figurinos e Dispositivo Cénico | Cristina Loja
Assistente de Encenação | Xavier Miguel
Direção de Cena e Contra-regra | Cristina Loja e Xavier Miguel
Design Gráfico | Dupla DP & Associados S. A.
Fotografia | Célia do Carmo
Direção Vocal | Paula Erra
Sonoplastia* | Élvio Camacho
Operação de Som | Cristina Loja e Xavier Miguel
Operação de Luz | Hélder Martins
Montagem de Luz | Hélder Martins e Xavier Miguel
Apoio Geral | Equipa TEF e Elenco
Frente de Casa e Bilheteira | Equipa TEF

* Neste espetáculo, todos os trechos musicais e cantados são de Hanns Eisler exceto os temas Underground (de Goran Bregovic e da Fanfare Ciocărlia, utilizado, em parte, no quadro O Roubo do Cão) e O Moldava (de Bedřich Smetana, executado pela Boston Symphony Orchestra sob a direção do maestro Rafael Kubelik, utilizado, em parte, no quadro Com os Tanques e o Cão).
A versão cénica deste espectáculo foi alvo duma intervenção dramatúrgica baseando-se na versão utilizada pelo grupo de Alunos Finalistas da Licenciatura em Teatro, do ano de 1999, da ESTCL, sendo confrontada com o original Schwey im Zweiten Weltkrieg, de Bertold Brecht e com a tradução de Sergio Viotti, de 1992, da Editora Paz e Terra, Vol 9, da Obra Bertold Brecht – Teatro Completo. Na fase de ensaios o elenco deu o seu contributo para a versão final que é agora apresentada.

** Utilização/adaptação de figurinos e adereços, de anteriores produções do TEF.

Texto do Encenador

Empréstimo de Artilharia,
Só Temos Infantaria

«(…) Desaparece na penumbra. Quando reaparece do outro lado, pára junto de uma sinalização que diz: Estalinegrado – 50 KM. Meneia a cabeça e continua a andar. As nuvens passam no céu. Estão vermelhas, reflectindo um incêndio distante. Sempre andando, Schweyk contempla-as, interessado. (…) .»*

Empresta-me, Giorgio Strehler, o tanque que, no Piccolo Teatro di Milano, em 1962, usaste na tua encenação; preciso do mesmo, não para a cena em si – onde os soldados terão cantado, de Eisler, o Miserere do Alemão – mas apenas para à cena levar esta peça. Nós imaginaremos (ainda cabe isso de imaginar para não fazer de Brecht um tédio de débitos sem expressão!) como simular os flocos de neve por cima de Schweyk. Empresta-me, Hanns Eisler, a tua afinação cúmplice com Brecht (sim, sabemos que ele tinha as suas reservas para com o poder de encantamento da música), as tuas músicas para esta peça e não só, o tema de Bedřich Smetana, Vltava, em que te inspiraste para fazer com que as primeiras notas do piano parecessem mesmo pedras em movimento no fundo do Moldau. Empresta-me, Artur Ramos, que encenaste esta peça em 1975, o dia, para mim inteiro, em que, no palco do Dona Maria II, quando estavas a dirigir Gladiadores, de Cortez, chegaste ao pé de mim, ofereceste-me uma carrada de fotocópias de peças de Alves Redol e disseste que eu tinha toda a cara de quem ia fazer O Destino Morreu de Repente.
Só temos infantaria.
Empresta-me, Cota 500, a força de escoramento das tuas obras de arte de engenharia. Empresta-me, saber, a ingenuidade com a qual, em 1999, na Escola Superior de Teatro e Cinema, no exercício final do Curso de Encenadores, montámos (grupo de alunos) partes desta peça e a levámos à Roménia e à Maison Jacques Copeau em França. Empresta-me, Paul da Serra, uma seta de indicação para bom porto. Valentim Lemos, empresta-me o que nos ensinaste da práxis de Brecht: foi a primeira vez que ouvi a tradução de Verfremdungseffekt como efeito de estranhamento e não de distanciamento, alienação ou outra qualquer. Será possível não iludirmos os espetadores? Quebrarmos o pacto de ilusão? Dá-me, Ana Cristina Pereira, mais festas de casamento com teatro para eu ter menos certeza das dúvidas mais seguras.
Empresta-me, Eugénia Vasques, o momento em que entraste na sala de aulas (a préfabricada da entrada do velho conservatório) e disseste: Shalom…. Ficámos atordoados… e eu sem saber o que era Shalom e quem era Yitzhak Rabin… que ele tinha sido assassinado! Cede-me, ainda, o alcance largo que me deste quando cantámos A Internacional e nos disseste que tinha tantas variações quanto apropriações.
Só não pedimos emprestado o nosso engajamento…
Foi Feydau e a sua peça A Pulga Atrás da Orelha – cuja autorização de utilização da tradução de Cucha Carvalheiro e de Manuela Couto já nos foi gentilmente cedida – que a Schweyk nos trouxeram; isto por um auspicioso acaso dum talentoso elenco que não conseguimos reunir para a primeira, mas sim para a segunda – não será uma coincidência para louvar, pois não é assim que podemos trabalhar com os princípios e condições pelos quais, há muito, lutamos a trabalhar – e, também, pela infeliz incerteza do futuro do TEF no tocante a valores de apoio sustentado que poderiam inviabilizar a Pulga. Enfim, razões de extrema atividade intelectual e de continuarmos, ainda, a conseguir dialogar com o que nos está a acontecer com um incomum senso. Estas duas peças, para mim, até são próximas, no nosso propósito e matriz de oferecer um princípio de universalidade da dramaturgia (e não será demais lembrar que temos dado especial atenção à dramaturgia portuguesa sem esquecer nomes da região) que à cena levamos aos espetadores madeirenses ao longo de mais de 36 anos. Serão peças distantes, sim, no tipo de riso que nos provocam. É, e já fizemos Brecht de todas as maneiras.
Bem gostaria de poder escrever algo num programa no tocante ao que posso dizer sobre intenções do fazer desta peça espetáculo, apenas depois do mesmo estrear e fazer carreira. Seria tão mais certo o que quer que escrevesse. Porém, absoluto e nítido é que dedicamos este Schweyk a ti, Avelina Macedo, que, durante mais de dez anos, tudo nos deste e nos deixaste dar. O Cálice é teu, ou não seria nesta taberna de Praga que se sonha o como vives e nesta peça é cantado: “O Homem será mais Homem / Nenhum vai ser afastado / Viveremos ao abrigo / Pois morremos congelados”.
Só os amassando, a dois dos poemas mais pequenos de que gosto, sei o que é agitprop. Um de Bertold Brecht, Da Violência: “Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. / Mas ninguém diz violentas / As margens que o comprimem”. Outro de Eugénio de Andrade: Arte de Navegar: “Vê como o verão / subitamente / se faz água no teu peito, / e a noite se faz barco, / e a minha mão marinheiro”.
Esta será “quase” hora e meia da gente a fazer Brecht, nesta versão de Schweyk, quando a Madeira “quase” parecia não entrar em acordo com as margens das suas ribeiras sem buganvílias. E agora vou-me a ler e escutar – letras e músicas – de dois belos Hinos: o da extinta República Democrática Alemã, por Hanns Eisler composto e o da Região Autónoma da Madeira, por João Victor Costa, pois “quase” são parecidas as letras; numa, Auferstanden aus Ruinen – “Reerguidos das ruínas / Enfrentando o futuro”; noutra – “Na senda do trabalho, / Nós lutaremos, / Alcançaremos / Teu bem-estar e glória”. Não é que Schweyk, a dada altura da peça, lembra-nos que: uma palavra como “quase” engana muito?
Afinal, todos os Hinos são sonhados.
Brecht, artilha-nos com a tua poesia. Empresta-nos o que pedes nas tuas didascálias de Schweyk. Talvez, assim, possamos contemplar, interessados, as nuvens vermelhas refletindo um incêndio distante.
É esta a nossa trincheira.

*BRECHT, Bertold, Schweyk na Segunda Guerra Mundial, (uma didascália da peça), trad. Sérgio Viotti.

Sinopse

«(…) No fundo do Moldau as pedras estão em movimento.
Há três imperadores enterrados em Praga.
O que é grande não ficará sempre grande nem o que é pequeno sempre pequeno.
A noite tem doze horas, mas depois vem o dia. (…).»*

Durante a II Grande Guerra, na cidade de Praga, ocupada pelos nazis, a taberna O Cálice é frequentada tanto por civis como por agentes da Gestapo. Sob um clima de grande vigilância, a população é forçada a uma racionalização de bens em prol do esforço de guerra; qualquer manifestação contra o regime, por pequena que seja, é passível de punição severa que pode ir desde a simples tortura até ao alistamento na frente de batalha.
Baloun, um dos clientes de Kopecka, a dona d’ O Cálice, desesperado com um clima de privação, mostra-se disposto a alistar-se no exército alemão onde supostamente os soldados são bem alimentados. Prochazka, enamorado de Kopecka, dispõe-se a arranjar-lhe um pedaço de carne e correr assim o risco de violar o esforço de guerra para provar o seu amor por Kopecka. Desta forma Baloun não precisaria de se alistar e permaneceria um “bom checo”. Entretanto, Schweyk, amigo de Baloun, forçado a prestar esclarecimentos junto da secreta, é contratado pela Capitã Bullinger para lhe arranjar um cão. Roubado o cão, Schweyk espera ser bem pago por Bullinger e como isso não acontece… a caminho de Estalinegrado, historicamente, encontrar-se-á com um Hitler.

*BRECHT, Bertold, Schweyk na Segunda Guerra Mundial, A Canção do Moldau, trad. Rui Vieira Nery.

AGRADECIMENTOS

Agradecemos a preciosa colaboração ou inspiração:
– do músico Norberto Gonçalves da Cruz, pela excução do tema musical A Canção do Moldau a partir do original de Hanns Eisler.
– da cantora Lidiane Duailibi, pelo apoio Vocal.
– do músico Bruno Monterosso, pela excução do tema musical Canção da Mulher do Soldado Nazi a partir do original de Hanns Eisler.
– de Ana Limpinho e Maria João Castelo, pela cortesia na cedência da ideia base para o cartaz deste espetáculo.
– de António Neves da Silva e José Pedro Caído, pela inspiração à Sonoplastia e cortesia na cedência dos temas musicais de A Canção do Cálice e Marchando para Jarosmersch.
– de Tatiana Belink e Maria Alice Vergueiro pela inspiração da versão de letra e tema cantado de A Canção do Moldau.
– de Rui Vieira Nery pela tradução, em parte utilizada, da letra de A Canção do Moldau.


Produção 125 do Teatro Experimental do FunchalProdução 118 do Teatro Experimental do Funchal