Uma galeria de Arte, pensada pelo Serviço Educativo da ATEF, em formatos   acessíveis para todos os públicos (invisuais, cegos, surdos, pessoas com mobilidade reduzida e outros ) – tradução em Língua Gestual Portuguesa,  audio descrição, braille, jogos e atividades relacionados.

4ª Exposição “CORpo SENSÍVEL”

De 30 novembro 2018 a 20 março 2019

Local – Café dos Artistas / Cine Teatro Stº António

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A ARte retornAR

(…) nós humanos, com todo o nosso peso, nunca deixamos  de aspirar à leveza. Podemos  não ter consciência disso, podemos sentir que os nossos dias são de chumbo, e que, no emaranhado de tudo o que nos cabe viver, experimentamos unicamente o contrário da leveza. Contudo,  habita-nos um persistente e interminável desejo disso  que a leveza significa, mesmo quando esse desejo se exprime apenas como um desencontro, um tormento ou uma sede. MENDONÇA, José Tolentino in RETORNAR À LEVEZA, (Revista/Expresso, 24nov2018), p. 92

Leitor assíduo das crónicas semanais de José Tolentino Mendonça, designadas “QUE COISA SÃO AS NUVENS” e, na particularidade do título “RETORNAR À LEVEZA”, encontrei um elemento de introdução – A LEVEZA, a servir também de pano de fundo ao novo projeto da galeria.a, designado CORpoSENSÍVEL.  Questionado sobre o que expor na galeria.a, e sendo este um quarto projeto expositivo (passo efetivo, para o segundo ano de existência), urge refletir sobre os olhares de quem expõe e de quem olha. Enredados neste princípio do VER, do que VER e como VER, propomo-nos servir o papel da arte enquanto promotora de mundos imaginários, filtro poderoso que matura a visão de cada um sobre o mundo. Neste contexto, o título CORpoSENSÍVEL, pode ler-se também COR SENSÍVEL, «provocando» uma interrogação sobre as particularidades individuais da sensibilidade  e de como ela se constrói. Face às crises que, na atualidade, se evidenciam no mundo e que se refletem, inevitavelmente: no sentir e no fazer artístico; no ensino da arte nas escolas; no papel das instituições culturais –  estreitadas em condicionalismos éticos, políticos e religiosos; na banalização da arte em muitos campos da vida social, onde ela é entendida  como confusa  e desnecessária. Apesar de tudo,  a arte respira.  José Bragança de Miranda, fala-nos de uma estetização da vida,  a arte  disseminada e diluída na própria existência. E a tendência é que o Homem seja cada vez mais dominado por um princípio maquinal, incipiente, racional, com «sorriso tecnológico», onde a consciência não se coaduna com a inteligência (artificial). Primordial será entender a Arte como um reduto, a resistência a uma artificialidade em expansão, e entender o artista como um resistente ao vazio e à  frieza  do mundo, com alertas e poemas concisos.   Precisamos de repensar a máxima do sublime artista James Lee Byars: “Sou um minimalista barroco”. Talvez a compreensão do Ser e do Estar na vida, seja esta aceitação do sublime, um caminho de luz, um retorno constante ao conceito de belo e à compreensão da nossa dimensão espiritual. Que a Arte seja, no fazer e no fruir, uma forma de nos tornarmos mais leves. Estamos a perder a poesia e a expressão da poesia está, cada vez mais, reduzida a nichos sociais.

A exposição CORpoSENSÍVEL, recria um percurso expositivo, a partir do olhar do curador, numa mostra de objetos que revelam ao espetador/fruidor uma reflexão sobre o TODO. Por entre alguns elementos do corpo, escolhidos como mais significativos (BOCA, OLHO(s), CORAÇÃO), na invocação da NATUREZA ou no apelo aos SENTIDOS, coexiste uma linguagem poética.  As leituras, os livros, mesmo que não presentes, são indícios inerentes à conceção de CORpoSENSÍVEL, servem de charneiras, como: “Por exemplo a cadeira”, de António Pinto Ribeiro, “A Louca da Casa” e “A Carne” de Rosa Montero, “O Silêncio na Era do Ruído” de Erling Kagge; ” Irreflexões” de Yvette Kace Centeno, a poesia de Jorge Sousa Braga,  entre tantos outros aqui não mencionados. Em resumo, criar algo que  aproxime o fruidor, não é mais do que invocar o sentIR, a compreensão da vida – feita de tantas coisas  mas, acima de tudo, feita da necessidade de criar uma ordem estética e uma ordem espiritual, uma VERDADE que intensifica a LUZ que nos move.                                           

Paulo Sérgio BEJu, nov2018